Então, este é o Clio que vai salvar o planeta.
Só que não - a menos que você esteja a dar carona para os Vingadores na próxima missão. A proposta aqui não é a de um guerreiro ecológico “sofredor”, e sim uma tentativa pragmática de baixar emissões num momento em que as vendas de diesel continuam a cair. Ao volante, a experiência muda em relação a um Clio comum, mas no visual praticamente não há o que denunciar. Nesse aspeto, portanto, não há mérito.
A plataforma modular CMF-B do Clio já nasceu preparada para eletrificação, e a Renault faz questão de destacar que, mesmo com o conjunto extra de bateria instalado atrás, o porta-malas quase não perde capacidade. São 300 litros, com uma pequena intrusão dos dutos de arrefecimento nas laterais, junto às rodas traseiras. Ainda assim, há estepe sob o piso. E o peso em ordem de marcha de 1,323kg também indica que a marca conseguiu manter a massa sob controle.
No restante, a rotina segue: esta é, até aqui, a interpretação mais madura do Clio, embora alguns detalhes peculiares devam confundir você e os passageiros nas primeiras utilizações - como as maçanetas traseiras “escondidas” e o acionamento do porta-malas, disfarçado pela iluminação da placa traseira.
Como funciona o sistema híbrido do Renault Clio?
Debaixo do capô há bastante tecnologia em jogo. O Clio híbrido “auto-recarregável” combina um motor a gasolina de 1,6 litro com dois motores elétricos.
O primeiro atua como gerador de partida de alta tensão e entrega 20bhp. Ele assume o lugar do alternador, faz a regeneração nas frenagens e ajuda a colocar o carro em movimento. Além disso, também alimenta o funcionamento do câmbio - já já isso fica mais claro.
O segundo motor elétrico, mais forte, tem 48bhp e fica responsável pelo trabalho pesado. Ele conta com o apoio de uma bateria de 1.2kWh e 230V instalada sob o piso do porta-malas. Em modo elétrico, o carro não sustenta mais do que 1 ou 2 milhas sem que o motor a combustão precise voltar a entrar em cena; mesmo assim, a Renault afirma que 80 per cent dos trajetos urbanos podem ser feitos em modo elétrico, graças à energia recuperada nas frenagens e a uma pequena parcela de energia “desviada” do motor a gasolina.
Câmbio, modos e o emblema E-Tech
O componente mais curioso é o câmbio de quatro marchas, do tipo “caixa de engate por dentes de quatro velocidades sem embreagem”. É um detalhe que dá um toque de credibilidade ao mesmo emblema E-Tech usado nos carros de F1 da equipa. E há ainda uma referência histórica: a solução remete ao Renault Type A de 1898, construído pelo fundador Louis Renault, que também adotava este tipo de configuração.
Na prática, a transmissão automática permite que o conjunto trabalhe em modos bem definidos, com o motor elétrico menor a acionar o câmbio para sincronizar rotações durante as trocas. Segundo a Renault, esse câmbio foi o que viabilizou o projeto, porque nenhuma das caixas mais convencionais da marca caberia junto de toda a eletrónica instalada ali.
É tão difícil de conduzir quanto de explicar?
Na rua, nada disso importa tanto quanto parece. Neste primeiro contacto em estradas do Reino Unido, dá para perceber rapidamente que os engenheiros da Renault fizeram um bom trabalho para que você mal note o que acontece por baixo da carroçaria. O que interessa é o básico: o carro anda, para, e faz muito disso com o motor a combustão desligado.
Durante o nosso período com o veículo, surgiram alguns trancos e pancadas mais secas nas mudanças de marcha. Tirando esses momentos pontuais, o conjunto é mais agradável do que a solução com CVT do Toyota Yaris.
Você não enfrenta o “berro” típico de um CVT no híbrido da Renault, mas quem vem de um carro exclusivamente com motor a combustão vai precisar de algum tempo para se adaptar. Às vezes há um pequeno atraso enquanto o carro decide qual parte do sistema vai mandar força às rodas. E, embora não seja tão barulhento quanto o sistema da Toyota pode ser, continua a existir aquela sensação estranha de o motor subir de giro fora de sincronia com o que o seu pé está a pedir no acelerador, enquanto o sistema recarrega a bateria. Com o tempo, é algo que dá para ignorar.
Como ele anda de verdade?
O conforto de rodagem é a boa surpresa. O Clio mantém a carroçaria bem assentada, com pouca inclinação, e as irregularidades do asfalto chegam mais pelos ruídos e por um leve “coice” de retorno no volante do que por balanços excessivos.
Ainda assim, é um carro confortável: filtra bem as ondulações típicas do anda-e-para urbano e segue com suavidade em autoestrada quando se sai da cidade. Isso dá ao Clio um ar mais adulto. Por outro lado, não há uma sensação real de diversão ao volante. Aqui, o carro funciona mais como ferramenta, a transportar você no sentido mais literal possível.
Vai fazer eu gastar menos?
No fim, é esta a pergunta. A versão híbrida de entrada começa no nível Iconic, por £1,500 acima do diesel mais completo que ainda existe na linha do Clio. Já as versões S Edition e R.S. Line acrescentam £500 em relação aos carros a gasolina imediatamente abaixo na gama.
Com tecnologia deste tipo, é natural pagar mais. O consumo oficial de 64.2mpg fica acima do de modelos comparáveis do Clio (nós registámos cerca de 52mpg em algumas centenas de milhas, com um terço do percurso feito em modo elétrico). Isso pode representar, talvez, algumas centenas de libras poupadas por ano em combustível, além de £50 a menos por ano em VED.
O carro que conduzimos foi o Launch Edition de £22,495 - o Clio mais caro à venda, mas que vem com itens úteis como entrada sem chave, central multimédia com ecrã tátil de 9.3 polegadas e um pacote de assistentes eletrónicos de segurança.
Devo comprar um?
Este Clio híbrido é o tipo de escolha feita com a cabeça. Sim, ele bebe pouca gasolina, mas não entrega o suficiente para justificar a compra em vez de uma das versões a gasolina mais baratas. Ainda mais considerando que os rivais híbridos no formato de hatch incluem o excelente Toyota Yaris novo e o Honda Jazz, extremamente prático.
Quer algo francês e mais gentil com o ambiente? Então vale olhar, antes de mais nada, para o Renault Zoe elétrico.
Nota: 6/10
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