Bem longe do corre-corre do Cais de Gaia, tem gente que acompanha o show dos aviões sem nem sair de casa. Na Rua de São Marcos, as mesas vão para o pátio e as portas ficam abertas para receber primos e sobrinhos que, acomodados na melhor “área vip” possível, celebram o Air Invictus como se fosse um encontro de família. Ao longo dos três dias de festival, cerca de 1 milhão de pessoas passou pelo evento. Só neste domingo, garante a organização, havia 600 mil espectadores ao longo do rio.
Com vista privilegiada para o Rio Douro, a casa de Joaquim Mota sempre foi o endereço das comemorações da família - e neste fim de semana não foi diferente, apesar de o cenário, normalmente marcado pela tranquilidade da água, ter sido trocado pela adrenalina das aeronaves. "Já estivemos aqui ontem a ver o ensaio e têm sido dois dias em cheio. É muito agradável ver o espetáculo daqui", diz o morador de Gaia, de 75 anos. A esposa, Manuela, preparou o almoço para 13 pessoas e, como fizeram os vizinhos, o grupo aproveitou a sombra do pátio para acompanhar as acrobacias.
Quem caminha pela Rua de São Marcos quase sente vontade de atravessar o portão daquelas casinhas tão parecidas, atraído pela animação de um evento que aproxima Gaia e Porto. Com uma mesa grande montada no pátio, a família Marques se reuniu na casa de Ana Maria Correia para ver, mais uma vez, o balé dos aviões. Neste ano, além de servir de motivo para o encontro, o Air Invictus virou também um “esquenta” para o São João, que já está batendo à porta. "Isto é ótimo", afirma Ana Maria, contente por receber os 17 familiares. "Acho só que está um bocadinho mal organizado. Os aviões estão a demorar muito tempo e há poucas acrobacias", critica a mulher de 72 anos, ainda assim presente desde o primeiro dia do festival.
Palácio de Cristal
Nem todo mundo consegue assistir ao espetáculo da varanda, em clima de família. Uns descem para a beira do rio; outros buscam pontos estratégicos entre as duas cidades e, de preferência, com sombra. Alice Soares e o pequeno Martim acharam um cantinho em Gaia que reunia proteção do sol e uma boa perspectiva do Douro.
"Vim sempre ver estes espetáculos mas é a primeira vez que venho para este lado [Gaia]. Gosto mais de ficar na Ribeira mas a verdade é que deste lado temos mais visibilidade", conta a mulher, de Oliveira de Azeméis. Alice, o marido, o pequeno Martim e os pais chegaram a Gaia por volta das 9 horas e ainda encaixaram uma caminhada pelas passarelas de Canidelo, onde deixaram o carro. "Isto é o máximo", resume.
Do lado de lá do rio, há quem prefira fugir da Ribeira. "Que "speed", viste?!" Paulo e Paula Ferreira apontam, empolgados, para o avião azul e amarelo passando ao longe em alta velocidade. Eles são de Gaia, mas escolheram os jardins do Palácio de Cristal, no Porto, para ver o último dia do Air Invictus, por ser um lugar mais protegido do sol.
Mesmo sem serem especialistas, já têm experiência em corridas aéreas. Estiveram na primeira edição da RedBull AirRace - na época, chegaram a comprar bilhete VIP para assistir de um terraço com boa vista para o rio - e não pensaram duas vezes antes de ir ao Air Invictus. "Já tinha saudades de ver isto", comenta Paulo. Ao longo do passeio no jardim, centenas de curiosos se debruçam para ganhar ângulo sobre o rio. No gramado, famílias ocupam espaço com mantas estendidas e piqueniques.
A senhora que não sabia
Ali, o clima é bem mais tranquilo do que em outros pontos da cidade, e tem até quem aproveite para tirar um cochilo, alheio à multidão reunida a poucos metros. Mesmo com o barulho dos aviões, Melda Dogan consegue se manter concentrada e relaxada, sentada de pernas cruzadas sobre o tapete de ioga. Ela veio da Turquia e está em Portugal há apenas duas semanas, com planos de ficar para morar. Quando decidiu ir ao jardim, não fazia ideia de que estava acontecendo um festival aéreo - e se surpreendeu ao ver as aeronaves passando tão perto do público. "Fiquei aqui mais atrás, porque estava com receio de estar tão perto dos aviões", explica, entre risos.
Seja da janela de casa, do Jardim das Virtudes, no Palácio de Cristal, no Morro ou nas margens do rio, qualquer lugar acaba servindo para acompanhar o baile dos aviões.
Aviões no ar, notícias em terra
Na área VIP, no Cais de Gaia, vários jovens usaram as pausas entre as apresentações no céu para folhear as edições impressas do JN e do jornal O Jogo.
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