Esta marca chinesa, ainda pouco conhecida na Europa, já virou um colosso com um peso comparável ao de alguns dos maiores fabricantes do Velho Continente. E ela não pretende parar agora.
Da piada ao domínio: a virada das montadoras chinesas
Há dez anos, dizer numa roda de entusiastas que a China iria atropelar o mercado automotivo global era a forma mais rápida de ser tratado como o “maluco” do grupo. E, na época, as objeções faziam sentido: muitos carros chineses eram considerados feios, com qualidade fraca, e as montadoras se destacavam pelo “copiar e colar”. BYD? Uma piada. SAIC? Ninguém sabia quem era. Nio, Xpeng, Geely, Li Auto? Nomes difíceis para carros que, supostamente, ninguém compraria fora das fronteiras chinesas.
Só que o jogo virou. Hoje, a BYD é um peso pesado: vendeu mais de 4,2 milhões de carros em 2025 e é uma das poucas capazes de encarar a Tesla no próprio território. A Geely, por sua vez, já supera Volvo, Polestar e Lotus - três marcas históricas que o grupo comprou. Atualmente, é a China quem dá o ritmo do setor automotivo, seja elétrico, híbrido ou a combustão: ninguém pode negar.
Essa ascensão meteórica abriu espaço para “novos” protagonistas (com muitas aspas, como veremos), entre eles a Changan. Trata-se de uma montadora estatal sediada em Chongqing que acaba de afirmar que quer entrar no top 10 global até 2030. Considerando o tamanho e o histórico do grupo, é bem provável que ela tenha um destino tão impressionante quanto o de outros titãs chineses.
Changan, quem é exatamente?
Antes de rir da ideia, vale olhar os números. Em 2025, a Changan vendeu 2,9 milhões de veículos, incluindo a produção das operações Changan Ford e Changan Mazda - as duas joint ventures por meio das quais o grupo monta modelos estrangeiros na China desde os anos 2000.
E não, ela não é uma start-up “faminta” recém-chegada. A Changan já funciona como uma máquina industrial madura, com raízes que remontam aos anos… 1860. Quando a Ford ainda nem existia, a Changan já fabricava material militar em Xangai para o Império Qing. A migração para o setor automotivo veio bem depois, em 1980, com seu primeiro modelo: o Chang’an CJ210, uma picape simples nascida de uma transferência de tecnologia com a Suzuki.
Ou seja, o grupo carrega 160 anos de história industrial, domina produção em massa e opera fábricas entre as mais automatizadas do mundo.
Em julho de 2025, a China Changan Auto Group foi oficialmente reestruturada como uma estatal centralizada, reunindo (segure-se!) 117 subsidiárias, 308,7 bilhões de yuans em ativos e cerca de 110.000 funcionários. Em declaração ao China Daily, o presidente do Conselho de Administração da China Changan, Zhu Huarong, afirmou: “Nossa missão é clara: construir um grupo automotivo de classe mundial, com suas próprias tecnologias de ponta e competitividade em escala global”.
Dentro do portfólio, já existem quatro marcas: Changan, como base histórica; Deepal, a ponta de lança elétrica premium; Nevo, a marca urbana mais acessível; e Avatr, o braço de alto padrão co-desenvolvido com Huawei e CATL - dois nomes estratégicos na tecnologia e nas baterias na China. Um verdadeiro “triângulo das Bermudas” da concorrência, capaz de deixar ainda mais desconfortáveis algumas montadoras europeias, que já sentem o impacto da onda chinesa.
O império contra-ataca: Changan senta à mesa dos grandes
Até 2030, o grupo quer emplacar entre 4 e 5 milhões de veículos por ano no mundo, sendo 60% do volume composto por modelos elétricos ou híbridos plug-in. No mesmo horizonte, a presença nas exportações deve triplicar em relação a 2025: algo entre 1,4 e 1,8 milhão de unidades fora da China, contra 638.000 atualmente.
Com base nos números da indústria em 2025, vender 5 milhões de veículos colocaria a Changan na quinta posição entre as maiores montadoras do planeta. O poder de investimento e execução é tão grande que o grupo poderia, em tese, errar com três marcas e acertar com outras três - enquanto, hoje, um único lançamento mal calculado pode afundar uma montadora europeia de porte médio.
Baterias de sódio-ion: a aposta de escala da Changan
Uma das “armas” mais agressivas está nos elétricos pensados para produção em massa: eles usam baterias de sódio-ion, e não de lítio-ion. É o pior pesadelo das marcas ocidentais, porque o custo de produção é muito menor e não se depende de metais raros para fabricá-las. Além disso, essas baterias sofrem menos com frio e recarregam bem mais rápido - embora tenham um ponto fraco claro: a densidade energética inferior, que tende a limitar o uso a trajetos curtos.
Só que isso, para a Changan, não é um problema: a maior parte dos deslocamentos no mundo não passa de 50 km. A meta é direta: vender milhões de veículos com preço imbatível; sedãs que prometem 800 km de autonomia não são o foco. Essa vitrine tecnológica ficará principalmente com a Avatr, que usa lítio-ion, para bater de frente no tema recarga: plataformas 800V capazes de recuperar até 600 km de autonomia em 10 minutos cravados.
Europa sob alerta: o paralelo com Toyota e Honda
Nos anos 1980, quando Toyota e Honda começaram a vender com força na Europa, as montadoras do Velho Continente demoraram demais para entender que estavam prestes a enfrentar uma das piores crises existenciais e industriais de sua história. É verdade que Volkswagen, Renault, Peugeot, BMW, Mercedes e companhia conseguiram reagir e se adaptar - mas à custa de reestruturações dolorosas e de fatias de mercado perdidas por muito tempo.
O roteiro já se repetiu com a China e a BYD em 2022-2024, e há um risco real de que volte a acontecer com a Changan. A diferença é que a Europa agora tem apenas quatro anos para reagir; e as tentativas de contra-ataque (como os conhecidos direitos de importação) não foram suficientes, até aqui, para conter esse tsunami - e nada garante que o desfecho será diferente.
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