O Tribunal de Atividades Económicas de Lyon decidiu: o fundo de investimento americano Lone Star foi escolhido para assumir a Polytechnyl. A decisão representa um grande desmantelamento industrial e deixa perto de 500 funcionários sem trabalho.
Para a indústria francesa, o choque é enorme. A Polytechnyl, nome histórico da química e referência na produção de nylon, acaba de passar para controle americano. Nesta segunda-feira, 27 de abril, a Justiça em Lyon homologou a proposta apresentada pela Lone Star por 10,1 milhões de euros.
Só que a operação está longe de configurar um salvamento industrial: o comprador mira apenas as patentes, a marca Technyl e as atividades de pesquisa, deixando de lado por completo as ferramentas de produção e os terrenos.
O impacto é imediato e severo. Dos cerca de 550 empregados da empresa, apenas 72 manterão o posto no site de Saint-Fons, no departamento do Rhône. Para todos os demais, a atividade será encerrada oficialmente em 30 de abril. Já a unidade de Valence, na Drôme - onde 88 pessoas trabalham na fiação do nylon - fica totalmente fora do acordo.
Sindicatos indignados
As entidades sindicais não escondem a revolta com uma retomada “em fatias”. “A gente sofre uma decisão repugnante, uma única oferta foi aceita no mínimo. Amanhã, 500 colegas vão parar no desemprego”, lamenta Patrick Leray, delegado sindical da CFE-CGC. A intersindical também aponta a falta de apoio do Estado, apesar de os estoques da empresa somarem, sozinhos, cerca de 17 milhões de euros - mais do que o valor pago na compra.
Além disso, ao transferir capacidade produtiva para um fundo estrangeiro, o país perde o controle total dessa cadeia dentro do território francês. Ainda assim, o nylon fabricado pela Polytechnyl estava presente em inúmeros itens do cotidiano: de cordas de raquetes de ténis a têxteis técnicos de marcas como a Decathlon, passando por uniformes do Exército.
E há outro risco: em Saint-Fons, a fábrica da Polytechnyl funciona como central de aquecimento para empresas vizinhas. A paralisação pode, portanto, desencadear um efeito dominó perigoso para toda a chamada Vale da Química.
Crise à escala europeia
Oriunda do universo Rhône-Poulenc, criado no fim do século XIX, a atividade foi separada na cisão do grupo em 1997, dando origem à Rhodia, antes de ser absorvida pela belga Solvay em 2011. Em 2020, a empresa passou ao controle da também belga Domo Chemicals. A gestão não conseguiu amortecer os choques que atingem o setor em toda a Europa, pressionado por custos energéticos elevados e por uma concorrência internacional agressiva.
A Polytechnyl não é um caso isolado: o produtor de PVC Kem One já havia passado para controle americano em 2021 e, mais recentemente, a joia industrial Vencorex foi comprada pela chinesa Wanhua.
A nossa análise
Para além do drama humano, trata-se de um risco estratégico relevante para indústrias de alta tecnologia. Ao perder o domínio da produção física de nylon, a França acrescenta mais uma dependência a uma cadeia global de abastecimento que já é frágil. E, sem fábricas para a materializar, a propriedade intelectual pesa pouco.
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