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STM: Armada do Chile, Força Aérea do Chile e ENAER e o retorno da soberania tecnológica

Dois homens em uniforme observam um modelo de avião sobre uma mesa com plantas em hangar.

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Da compra externa à construção de capacidades no Chile

Durante muitos anos, a ampliação das capacidades militares do Chile se apoiou sobretudo na compra de sistemas estrangeiros já consagrados. De fragatas a aeronaves de combate, prevaleceu a ideia de adquirir tecnologia madura, adaptá-la às demandas nacionais e sustentá-la com meios locais de manutenção e modernização.

Esse padrão, porém, parece começar a mudar com a assinatura do contrato entre a Armada do Chile, a Força Aérea do Chile e a ENAER para elaborar o Estudo Básico de Investimento e Engenharia (EBI) do Projeto Sistema Turboélice Multipropósito (STM). Mais do que a simples obtenção de uma nova plataforma aérea, o entendimento abre um caminho que busca recolocar a indústria nacional como participante relevante na geração de capacidades estratégicas de defesa.

O Projeto Sistema Turboélice Multipropósito (STM) e a convergência entre Armada do Chile e Força Aérea do Chile

A proposta do STM é conceber e, no futuro, possibilitar a construção de uma aeronave turboélice multipropósito voltada a atender necessidades comuns da Aviação Naval e da Força Aérea. À primeira vista, o programa se apresenta como reposição ou complemento de plataformas de treinamento e de missões de apoio.

Só que uma análise mais cuidadosa indica que o alcance real do STM ultrapassa em muito o avião que poderá nascer das pranchetas e modelos de engenharia. O ponto central em disputa é a retomada de uma competência industrial que o Chile buscou desenvolver de forma irregular ao longo de décadas.

Um aspecto especialmente importante do acordo é que ele surge a partir de uma demanda compartilhada por duas Forças. Historicamente, cada instituição conduziu seus programas de obtenção de meios conforme critérios próprios, com cronogramas, orçamentos e requisitos separados. Esse modelo ajudou a atender necessidades operacionais específicas, mas, ao mesmo tempo, dificultou economias de escala e a consolidação de projetos industriais nacionais com horizonte de longo prazo.

O STM altera parcialmente essa lógica. Depois de muitos anos, Armada e Força Aérea passam a convergir em torno de uma mesma plataforma aérea, procurando cumprir requisitos comuns com uma solução concebida no Chile. A importância disso não deve ser minimizada. No cenário internacional, os grandes programas industriais de defesa que prosperam costumam se apoiar justamente em uma massa crítica de usuários, capaz de assegurar volume de produção, financiamento constante e continuidade operacional. Sem uma demanda institucional unificada, nenhum empreendimento aeronáutico tem chance concreta de se sustentar.

O espelho naval: o que o Projeto Escotillón ensinou

Para entender o significado do STM, ajuda observar o que ocorreu no domínio marítimo nos últimos anos. O chamado Projeto Escotillón tornou-se um dos pilares da estratégia de desenvolvimento industrial naval promovida pela Armada do Chile em conjunto com a ASMAR. Diferentemente de iniciativas anteriores, que dependiam majoritariamente de compras externas, o Escotillón busca estabelecer uma capacidade permanente de projetar, construir e evoluir meios navais a partir do território nacional. Para além dos navios específicos envolvidos, o valor estratégico do programa está na tentativa de consolidar conhecimento, infraestrutura, capital humano e cadeias locais de suprimento.

A experiência internacional indica que a maior riqueza desse tipo de programa não se limita ao produto entregue ao final. O que realmente conta é o ecossistema tecnológico que se forma ao redor. Coreia do Sul, Turquia, Brasil e Austrália compreenderam há anos que cada projeto de construção naval cria competências industriais que depois podem ser aproveitadas em outros segmentos produtivos. Construir um navio moderno requer integração de sistemas, eletrônica avançada, materiais especializados, software, simulação, gestão logística e engenharia complexa. Uma vez absorvidas, essas capacidades não desaparecem quando a embarcação é incorporada; elas passam a compor o patrimônio tecnológico do país.

Essa mesma lógica, ao que tudo indica, começa agora a ser transportada para o setor aeronáutico.

ENAER e o salto tecnológico desde o programa Pillán

Em termos históricos, o STM provavelmente é o desafio tecnológico mais expressivo enfrentado pela ENAER desde o programa Pillán. A estatal acumula uma trajetória consistente em manutenção pesada, modernização de aeronaves, fabricação de componentes e participação em cadeias internacionais de suprimento aeronáutico. Ainda assim, projetar uma aeronave totalmente nova representa um nível de complexidade significativamente maior.

A indústria aeronáutica global está repleta de projetos tecnicamente viáveis que, apesar disso, não prosperaram por motivos econômicos, comerciais ou institucionais. Por essa razão, o resultado do STM não será definido apenas pela competência de seus engenheiros ou pelo parque industrial já existente. A viabilidade dependerá da capacidade de manter uma visão estratégica por uma década ou mais, resistindo a mudanças políticas, variações orçamentárias e ajustes institucionais. No mundo, programas aeronáuticos são maratonas - não provas de velocidade.

A oportunidade de construir soberania tecnológica

A guerra na Ucrânia, as tensões geopolíticas no Indo-Pacífico e as restrições crescentes nas cadeias globais de suprimento recolocaram em destaque a ideia de autonomia estratégica. Hoje, nenhum país de porte médio pretende produzir sozinho todos os seus sistemas de defesa. Ainda assim, cada vez mais Estados buscam garantir controle nacional sobre capacidades consideradas críticas para sua segurança.

Dentro desse panorama, o STM se encaixa em uma tendência internacional. É improvável que o Chile concorra com grandes conglomerados aeronáuticos em segmentos de altíssima complexidade tecnológica. Porém, o país pode ambicionar desenvolver plataformas específicas para suas necessidades operacionais, preservando o controle sobre integração, suporte logístico, modernização e evolução futura. Esse é justamente o espaço em que países como o Brasil vêm alcançando resultados relevantes.

O desenvolvimento de uma aeronave turboélice multipropósito também pode virar uma escola tecnológica para novas gerações de engenheiros, técnicos e especialistas aeronáuticos do país. Mesmo que a produção final seja limitada, as competências acumuladas ao longo do processo podem render ganhos tecnológicos de longo prazo.

Critérios de avaliação: exigências do setor e valor estratégico

O anúncio do STM desperta entusiasmo, mas isso não elimina as dificuldades. A aeronáutica é uma das indústrias mais rigorosas do mundo em certificação, segurança operacional, integração de sistemas e controle de qualidade. Além disso, o mercado global de turboélices é altamente competitivo, com fabricantes estabelecidos e produtos amplamente testados.

Por isso, o STM não deveria ser analisado apenas por métricas comerciais. O argumento central tende a ser estratégico e industrial. Se o programa conseguir robustecer capacidades nacionais de projeto, integração e fabricação avançada, ele já terá criado valor antes mesmo de a primeira aeronave entrar em operação. O essencial é evitar expectativas fora da realidade e entender que construir capacidades tecnológicas é um processo cumulativo.

Quando visto em conjunto com o Projeto Escotillón, o STM parece apontar para um movimento mais amplo. Pela primeira vez em décadas, o Chile começa a organizar iniciativas que vão além da mera aquisição de meios, concentrando-se na criação de capacidades industriais próprias. Não se trata de abandonar compras no exterior nem de buscar uma autossuficiência inalcançável. Trata-se de escolher áreas nas quais o país possa desenvolver conhecimento, preservar competências críticas e gerar valor tecnológico interno.

No campo naval, essa aposta já está em andamento. No setor aeronáutico, ela está apenas começando. Ainda assim, a coincidência temporal de ambos os programas sugere que pode estar surgindo uma percepção diferente sobre o papel da indústria de defesa no desenvolvimento nacional.

Se essa visão se firmar, o STM será lembrado não apenas como o projeto de um novo avião, mas como um dos marcos do retorno da indústria estratégica chilena como instrumento de soberania tecnológica e desenvolvimento do país. Afinal, o desafio não é simplesmente construir aeronaves ou navios. O desafio real é construir capacidades.

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