Dez dias e pouco depois de chegarem à Estação Espacial Internacional (ISS), passageiros bem inusitados passaram a dividir o mesmo ambiente dos tripulantes: invertebrados sem cérebro que, ainda assim, podem ser decisivos para tornar a exploração espacial mais segura.
Desde 11 de abril, os astronautas experientes da Expedição 74 a bordo da ISS convivem com milhares de nematódeos - vermes minúsculos de cerca de 1 mm. Trata-se de exemplares de Caenorhabditis elegans, enviados a partir de Cabo Canaveral na missão de reabastecimento Commercial Resupply Services 24 (CRS-24).
Petri Pod: como a NASA mantém os nematódeos em órbita baixa
Para a viagem, a NASA acomodou os animais em um pequeno contêiner com múltiplas câmaras, batizado de “Petri Pod”, projetado para manter pressão, temperatura e níveis de oxigênio constantes. A intenção, no longo prazo, é entender como os seres vivos - e, por extensão, o organismo humano - respondem ao espaço, já que os vermes serão submetidos às condições típicas da órbita baixa.
Microgravidade e radiação ionizante compõem um cenário bastante diferente daquele a que esses organismos estão adaptados na Terra, onde normalmente vivem em matéria orgânica em decomposição.
Os novos ocupantes da ISS
Por que escolher nematódeos? Embora pareça contraintuitivo, cerca de 35% a 40% dos genes de C. elegans têm equivalentes em humanos. Por isso, ele é um organismo modelo muito usado na ciência e compartilha conosco várias funções biológicas fundamentais - como regulação muscular, resposta ao estresse celular, envelhecimento e sensibilidade à radiação, por exemplo.
Adotar esse tipo de modelo também oferece um caminho ético mais flexível para avaliar impactos nocivos do ambiente espacial, já que testar diretamente em humanos simplesmente não é uma opção. Além disso, por ter vida curta, C. elegans permite acompanhar diversas gerações dentro de uma mesma missão.
Depois de ser fixado na parte externa da estação com o auxílio do braço robótico da ISS, o Petri Pod vai expor os nematódeos ao ambiente espacial em órbita baixa por quinze semanas - um protocolo que jamais poderia ser aplicado a um astronauta.
Monitoramento pela Universidade de Exeter e o que será medido
A partir da Terra, pesquisadores da Universidade de Exeter acompanharão os vermes continuamente. Câmeras instaladas no Petri Pod enviarão imagens em luz branca e também por fluorescência - técnica que permite visualizar marcadores biológicos específicos em tecidos vivos. Sequências em lapso de tempo complementarão o sistema, registrando ao longo das semanas as possíveis mudanças fisiológicas sofridas pelos animais.
Com isso, será possível compreender melhor como a radiação cósmica pode danificar o DNA desses organismos e como a microgravidade influencia a dinâmica de degradação das fibras musculares. Como os nematódeos compartilham esses mecanismos básicos conosco, o principal interesse dos cientistas está nas respostas adaptativas: de que maneira seus corpos vão reagir às agressões desse ambiente hostil? A expectativa é reunir um grande volume de dados, que depois ajudará a aprimorar protocolos médicos para futuras missões lunares.
“Isso pode parecer surpreendente, mas esses vermes minúsculos podem desempenhar um papel importante no futuro do voo espacial tripulado”, declarou Elizabeth Ann Lloyd, ministra britânica envolvida nas políticas espaciais do Reino Unido. Afinal, sem modelos biológicos confiáveis para antecipar os efeitos do cosmos no organismo humano, seguir adiante com tranquilidade com o programa Artemis será muito complicado.
Se o cronograma avançar sem atrasos, o próximo passo do ser humano na Lua deve ocorrer, em teoria, no começo de 2028, durante a missão Artemis IV. É curioso perceber que o futuro de um dos programas mais ambiciosos da NASA depende, em parte, desses pequenos vermes.
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