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A participação do EMCO no Cyber Tatanka 2026 e a proteção da infraestrutura crítica

Homem analisando dados de energia em tela com mapa e gráficos em escritório moderno.

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A presença do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas do Chile em Nebraska, nos Estados Unidos, evidencia um fato cada vez mais nítido: a proteção da infraestrutura crítica está se consolidando como uma missão central da defesa nacional.

A informação circulou sem muito alarde fora do meio especializado. Entre 1º e 7 de junho, uma comitiva do Estado-Maior Conjunto (EMCO) esteve no Cyber Tatanka 2026, exercício multinacional realizado na University of Nebraska–Lincoln e considerado um dos principais ambientes de treinamento e cooperação em proteção de infraestrutura crítica e ciberdefesa nos Estados Unidos.

De longe, isso poderia ser interpretado apenas como mais um item na agenda internacional, que cresce à medida que a cibersegurança ganha espaço. Mas, observando com mais atenção, a participação chilena aponta para algo mais amplo: ela sinaliza como as prioridades estratégicas das Forças Armadas e dos Estados vêm se ajustando diante de ameaças que já não se restringem aos domínios tradicionais.

A discussão sobre se a cibersegurança integra ou não a segurança nacional já ficou para trás. O debate que importa hoje é de outra ordem: como resguardar sistemas cuja interrupção pode comprometer o funcionamento de um país mesmo sem que exista uma guerra declarada. Se no século XX os centros de gravidade de uma nação estavam concentrados nas forças armadas, em indústrias estratégicas ou em linhas de comunicação, no século XXI grande parte desses ativos depende de redes digitais - e sua vulnerabilidade já foi demonstrada repetidas vezes.

Cyber Tatanka 2026 e a defesa da infraestrutura crítica

É nesse cenário que exercícios como o Cyber Tatanka ganham peso. A proposta é treinar a proteção de infraestruturas críticas diante de situações complexas, em que se combinam ataques cibernéticos, interrupções operacionais, falhas de coordenação institucional e decisões tomadas sob forte pressão.

A lógica é direta. Quando uma usina deixa de operar por causa de uma intrusão informática, quando um porto tem seus sistemas logísticos comprometidos ou quando uma rede de telecomunicações é degradada por um agente hostil, o problema deixa de ser apenas tecnológico e passa, imediatamente, a ser um tema de segurança nacional. Por isso, o Cyber Tatanka reúne militares, órgãos governamentais, universidades, empresas de tecnologia e operadores de infraestrutura crítica em um único ambiente de treinamento, buscando simular as condições que decisores enfrentariam em uma crise real.

Os Estados Unidos vêm desenvolvendo esse modelo há anos. A prática acumulada mostra que proteger infraestrutura crítica de forma efetiva exige coordenação contínua entre atores públicos e privados - algo particularmente relevante porque boa parte dos sistemas estratégicos no Ocidente é operada por empresas civis.

De Estônia a Stuxnet: como a ciberdefesa ganhou centralidade

O avanço da ciberdefesa não apareceu por acaso. Ele foi impulsionado por uma sequência de eventos que alterou, de maneira profunda, a forma como os Estados enxergam ameaças. O episódio da Estônia, em 2007, costuma ser citado como um marco inicial. Durante semanas, órgãos governamentais, instituições financeiras e veículos de mídia sofreram ataques em larga escala que prejudicaram seriamente o funcionamento digital do país. Mesmo sem danos físicos, ficou claro o quanto uma nação altamente conectada pode sofrer disrupção relevante sem que haja uma ação militar convencional.

Depois veio o Stuxnet. Pela primeira vez, comprovou-se que uma ferramenta digital era capaz de produzir efeitos físicos em sistemas industriais complexos. O recado foi inequívoco: o ciberespaço não se limitava a espionagem ou roubo de dados; ele também podia ser usado como instrumento de sabotagem estratégico. A partir daí, as principais potências passaram a construir doutrinas específicas para atuar nesse novo domínio.

Ainda assim, foi a Ucrânia que acabou se tornando o grande laboratório contemporâneo para entender a integração entre operações militares e ações no ciberespaço. Mesmo antes da invasão russa de 2022, o país já lidava com campanhas sistemáticas contra órgãos públicos, setor energético, sistema financeiro e telecomunicações. O diferencial em relação a conflitos anteriores foi a integração de diversas ferramentas dentro de uma mesma estratégia: operações convencionais, atividades de inteligência, guerra eletrônica, campanhas de influência e ciberataques passaram a operar de forma coordenada.

Para planejadores ocidentais, uma conclusão se destacou: infraestruturas críticas passaram a integrar o campo de batalha. Energia, telecomunicações, finanças, logística e serviços públicos deixaram de ser vistos apenas como ativos econômicos e passaram a ser tratados como objetivos estratégicos. Não por acaso, muitos exercícios hoje conduzidos nos Estados Unidos e na Europa reproduzem exatamente esse tipo de cenário.

Resiliência operacional: manter o país funcionando sob pressão

A preocupação já não se limita a resguardar informações classificadas ou sistemas estritamente militares. A atenção se deslocou para a capacidade de uma sociedade continuar operando sob pressão prolongada. No plano doutrinário, ganha força o conceito de resiliência operacional. A pergunta, no fundo, é simples: um país consegue seguir funcionando se parte de sua infraestrutura crítica for degradada?

Um debate particularmente relevante para o Chile

Se há um país em que essa discussão assume um peso especial, esse país é o Chile. A economia nacional se apoia em infraestruturas altamente interconectadas e cada vez mais digitalizadas. A mineração depende de sistemas industriais complexos que combinam sensores, redes de comunicação e plataformas de controle remoto. Os portos movimentam parcela significativa do comércio exterior com suporte de sistemas automatizados. O sistema financeiro está entre os mais digitalizados da região. Telecomunicações, energia e logística formam pilares essenciais para o funcionamento econômico. Isso aumenta a eficiência, mas também amplia vulnerabilidades.

Por muito tempo, o debate sobre defesa esteve ligado sobretudo a ameaças convencionais. Hoje, o quadro mudou. Um incidente capaz de afetar, ao mesmo tempo, redes elétricas, telecomunicações ou plataformas logísticas pode produzir impactos econômicos imediatos sem recorrer a ações militares tradicionais. Isso não quer dizer que o Chile esteja diante de ameaças iminentes desse tipo. Significa, sim, que o planejamento estratégico contemporâneo precisa contemplar cenários que, há apenas duas décadas, eram praticamente inexistentes.

Um ponto pouco visível nessa discussão é a proteção dos sistemas de tecnologia operacional, conhecidos internacionalmente como OT (Operational Technology). Diferentemente das redes de TI tradicionais, esses sistemas comandam processos físicos. Eles garantem o funcionamento de usinas, plantas industriais, redes de distribuição de água, portos e várias infraestruturas críticas que, historicamente, foram projetadas para operar em ambientes fechados.

No entanto, com a digitalização e o aumento da conectividade, a exposição desses sistemas cresceu de forma significativa. Especialistas concordam que protegê-los será um dos maiores desafios dos próximos anos. Não é por acaso que boa parte dos exercícios modernos de ciberdefesa inclui situações associadas à tecnologia operacional. Para países com forte dependência de setores extrativos e industriais, como o Chile, esse tema é particularmente sensível.

Cooperação internacional e confiança antes da crise

Há ainda um elemento que ajuda a explicar por que exercícios como o Cyber Tatanka importam: ameaças digitais não respeitam fronteiras. Um adversário pode atuar a milhares de quilômetros, explorar infraestrutura distribuída em diferentes continentes e atingir várias organizações ao mesmo tempo. Por isso, nenhum país detém, sozinho, toda a informação necessária para enfrentar esse tipo de risco.

A cooperação internacional passou a ser uma capacidade estratégica. Compartilhar indicadores de comprometimento, trocar aprendizados, construir procedimentos comuns e estabelecer redes de confiança tornou-se tão relevante quanto dispor de ferramentas tecnológicas. Nesse contexto, a participação do EMCO ganha valor adicional: além de permitir acesso a experiências acumuladas por outras nações e setores, ela também favorece a criação de vínculos profissionais que podem ser decisivos em crises reais.

Assim como em outras áreas, na cibersegurança a confiança institucional precisa ser construída antes que a emergência aconteça - e não durante.

Provavelmente, o aspecto mais significativo da presença chilena no Cyber Tatanka está no que ela representa do ponto de vista doutrinário. Por décadas, a defesa nacional foi organizada em torno de ameaças facilmente identificáveis e domínios operacionais relativamente delimitados. A história recente, porém, confirma que adversários podem operar de modo persistente abaixo do limiar do conflito aberto: conduzir espionagem, influência, intrusões ou sabotagem sem necessariamente empregar meios militares convencionais. Isso obriga a ampliar o entendimento tradicional de segurança.

As Forças Armadas seguem sendo fundamentais para a defesa do território, mas cada vez mais países reconhecem que a estabilidade nacional também depende de proteger as infraestruturas que sustentam a economia, as comunicações, a energia e os serviços essenciais. Em outras palavras, a defesa no século XXI não se resume a resguardar fronteiras; ela também passa por proteger sistemas.

A participação do Estado-Maior Conjunto no Cyber Tatanka 2026 deve ser lida dentro desse quadro mais amplo. Não se trata apenas de uma atividade acadêmica, nem de um exercício técnico restrito a especialistas. Ela oferece, ao contrário, uma oportunidade para observar como as ameaças evoluem, como os países mais avançados se preparam e quais capacidades provavelmente vão influenciar a segurança nacional nas próximas décadas.

A experiência de conflitos recentes indica que crises futuras dificilmente começarão como as do passado. Os primeiros sinais podem não ser movimentação de tropas ou presença naval. Eles podem surgir como interrupções em sistemas críticos, degradação de serviços essenciais ou ações direcionadas à infraestrutura que viabiliza o funcionamento cotidiano de uma nação.

Nesse tipo de cenário, antecipar, resistir e se recuperar dessas ameaças será tão importante quanto capacidades militares convencionais. É por isso que exercícios como o Cyber Tatanka vêm ganhando relevância crescente na arquitetura internacional de segurança.

A ida do Chile a Nebraska, em última análise, mostra que esse debate não é mais uma projeção para o futuro: ele já faz parte do presente.

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