Espera, CLE? Ótimo. Mais uma sopa de letrinhas.
Calma lá. Antes de entrar em pânico, vale saber o seguinte: o novo Mercedes-Benz CLE é um carro bem fácil de entender. Trata-se de um cupê de duas portas, com linhas mais suaves, pensado para encarar Audi A5 e BMW Série 4 e, na prática, tomar o lugar dos cupês das Classes C e E. Os motores não são novidade e vários componentes do interior você certamente já viu. É, basicamente, duas propostas virando uma só. Tipo aquela música das Spice Girls.
Então ele é mais Classe C ou mais Classe E?
Em tamanho, o CLE chega muito perto do antigo cupê da Classe E. O entre-eixos é só um pouquinho menor, mas o carro é mais comprido no total, e a largura muda quase nada - a diferença é de apenas 2,5 milímetros.
No visual, porém, ele conversa mais com a Classe C. Pode ser pelo desenho mais “apertado” dos faróis ou pelo formato das lanternas, mas a frustração mesmo é outra: o CLE não traz o perfil sem coluna central (sem a coluna B) que deixava o cupê da Classe E tão especial - um traço clássico nos cupês mais elegantes da Mercedes. Os engenheiros citaram motivos supostamente chatos como “integridade estrutural” e “segurança” para manter a coluna B no lugar. Pff, que pena. Poucas coisas gritam sofisticação como um cupê sem coluna.
E por dentro?
Aqui a influência de Classe C é ainda mais forte. Para ser direto: é quase igual. E isso não chega a ser ruim - tanto o C quanto o CLE têm bancos que acomodam bem e abraçam o quadril, e os apliques do painel têm boa aparência. Só não vá apalpar os acabamentos. As peças brilhantes rangem, marcam fácil com pó e digitais, e mais abaixo - ali pela altura do quadril para baixo - aparece bastante plástico com cara de simples. A cabine impressiona à primeira vista, especialmente com as telas grandes e a iluminação ambiente digna de pista de dança em Miami, mas o capricho fino não acompanha tudo.
Já que o assunto são telas: todo CLE vem com duas. O quadro de instrumentos digital de 31,2 cm (12,3") permite várias configurações, com temas coloridos e diferentes layouts. No centro, há uma tela vertical de 29,5 cm (11,6"), estilo “tablet”, com uma versão atualizada do sistema MBUX (dá para pronunciar como “ém-bâquis”, é divertido), cujo destaque mais óbvio são ícones de menu maiores. Chique. Como esperado, Apple CarPlay e Android Auto vêm de série e funcionam sem fio, e a assistente de voz “Ei, Mercedes” adora se oferecer para ajudar em um monte de tarefas.
Pontos negativos? O banco traseiro é apertado e o acesso não é dos melhores por causa da linha de teto bem curvada (e, convenhamos, cupês sem coluna também facilitam entrar e sair). Além disso, aqueles touchpads “bobos” no volante continuam sendo trabalhosos, principalmente para rolar menus no painel de instrumentos. Pelo menos há uma boa notícia: o porta-malas do CLE é maior do que o dos cupês da Classe C e da Classe E.
O CLE é bom de dirigir?
Ele é agradável, mas não dá para chamar de cupê especialmente empolgante ao volante. Funciona melhor como um carro confortável para viajar, devorando quilómetros de estrada, e também fica totalmente à vontade rodando tranquilo na cidade. Só que, quando a via começa a enrolar, o conjunto perde brilho. A direção é leve demais e transmite pouco, mesmo no modo Sport mais agressivo, e o pedal de freio passa uma sensação esponjosa. Para reduzir a velocidade desse duas-portas grande, você precisa afundar bem o pedal.
Na Europa, é possível escolher suspensões adaptativas eletrónicas com acerto de conforto ou de proposta esportiva, e ainda dá para pedir direção traseira com esterçamento de 2,5 graus para ganhar um pouco de agilidade. Nos Estados Unidos, não há nenhuma dessas opções: o CLE vendido por lá tem acertos de chassi conforto e esportivo, mas com amortecedores de carga fixa, e não oferece esterçamento nas rodas traseiras. A Mercedes-Benz afirma que o público norte-americano não procura esses recursos e, sinceramente, não sei se eles deixariam esse comportamento “mais ou menos” muito mais animado.
Há muitas opções de motor?
No mundo, existem três motorizações, mas o seis-em-linha 3,0 litros turbo do CLE450 é o destaque da gama. Ele traz um motor-gerador de arranque integrado, que deixa o sistema liga/desliga mais suave e ainda dá um empurrão elétrico antes de a turbina encher. Sozinho, o seis-em-linha entrega 280 kW (375 hp) e 500 Nm (369 lb-ft), mas o sistema híbrido-leve de 48 volts pode acrescentar até 17 kW (23 hp) e 205 Nm (151 lb-ft). É um motor já bem conhecido em vários modelos da Mercedes-Benz e é uma delícia. Num cupê com porte de Classe E como o CLE, é com ele sob o capô que o carro rende melhor.
Ainda assim, considerando o caráter pouco esportivo do modelo - sem falar no tipo de cliente que ele mira - o quatro-cilindros 2,0 litros turbo do CLE300 deve atender perfeitamente a maioria. Ele também usa o mesmo motor-gerador de 48 volts, mas o 4 cilindros entrega 190 kW (255 hp) e 400 Nm (295 lb-ft). Em aceleração máxima, o som não é exatamente bonito, mas dá para abafar isso com um sistema de áudio Dolby Atmos bem forte. Tanto o CLE300 quanto o CLE450 trazem tração integral 4Matic de série, além de um câmbio automático de nove marchas extremamente suave.
Fora dos EUA, o cliente pode optar por uma versão mais mansa do 4 cilindros híbrido-leve no CLE200 de tração traseira ou no CLE200 4Matic, com 150 kW (201 hp) e 320 Nm (236 lb-ft). Há também o CLE220d a diesel, com 145 kW (194 hp) e 441 Nm (325 lb-ft). Mas, por eu ser norte-americano, a Mercedes pediu com gentileza que eu me concentrasse no CLE300 e no CLE450 durante o tempo ao volante em Espanha. Aposto que as outras versões dão conta do recado; menos potência não deve mudar o jeito do CLE.
E um híbrido plug-in? Ou algum AMG de tirar o fôlego?
Os dois vêm aí, prometo. O Mercedes-AMG CLE63 deve ser especialmente curioso, já que deve usar o conjunto híbrido do sedã C63, com o 2,0 litros turbo de quatro cilindros supercarregado por eletrificação. Isso abre espaço para um CLE63 com 500 kW (671 hp) e 1.019 Nm (752 lb-ft) de torque. Saindo de um “quatro canecos”. Insano.
Então você gostou do CLE?
Eu… acho que sim. Não há nada exatamente ruim nele, tirando alguns detalhes do interior. E admito: num dia de sol, passeando pela costa do País Basco, em Espanha, com os vidros baixados e o teto solar aberto, o CLE é uma graça.
Ao mesmo tempo, nada no novo CLE realmente salta aos olhos como extraordinário - nem sequer especialmente marcante - e ele certamente não vai acelerar seu pulso. É um cupê “ok” que substitui dois outros cupês “ok”, mantendo o mesmo ritmo “ok” de sempre. E, com o espaço dos cupês de luxo pessoal a encolher, talvez seja exatamente isso que o CLE precise ser.
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