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Ford Mustang Mach 1 no Reino Unido: vale o preço extra?

Carro esportivo amarelo Mustang acelerando em pista molhada, com detalhes em preto.

Um Mustang amarelo com faixa preta. É pra levar a sério!

Claro que é. E vale mesmo a pena configurar o seu com £850 da pintura Grabber Yellow. O Mach 1 é o Mustang mais “raiz” que a Ford já trouxe oficialmente para o Reino Unido - o que é mais ou menos como dizer que é o chilli mais picante dentro de um korma de supermercado. Nos EUA, eles têm o Shelby GT500, com um V8 5,2 litros supercharged entregando 760 bhp (aprox. 567 kW) e 625 lb ft (aprox. 847 N·m). Números de McLaren, custando o mesmo que o nosso Mach 1.

E quanto custa?

£55.255. Em troca, você leva 454 bhp (aprox. 339 kW) e 390 lb ft (aprox. 529 N·m) do V8 5,0 litros aspirado.

Mas espera: isso não parece muito acima do Mustang normal?

Em potência, quase não. No preço, sim. Um Mustang GT de entrada - ainda com V8, porque o 2.3 já saiu de linha - sai £11.000 mais barato e, mesmo assim, oferece 444 bhp (aprox. 331 kW) com um V8 praticamente igual.

Então qual é a do Mach 1?

A proposta é ser mais focado em quem dirige e, para isso, ele recebeu um pacote grande de ajustes finos. O V8 ganhou coletor de admissão retrabalhado, além de filtro e radiador de óleo revistos, para arrancar esses 11 bhp extras. Só que as mudanças mais relevantes estão além do motor: há novos subchassis dianteiro e traseiro, barras estabilizadoras e molas dianteiras mais rígidas, calibração específica dos amortecedores MagneRide e da direção elétrica.

Isso já convence bastante. Mas a Ford foi além: diz que o splitter redesenhado, o assoalho inferior e o difusor traseiro, em conjunto, elevam a força aerodinâmica (downforce) em 25%. Só que 25% a mais do que quase nada ainda é… quase nada. Melhor não se empolgar achando que é um 911 GT3 pela metade do preço.

O Mach 1 aguenta desaforo em pista?

Depende do referencial. Ele participou do nosso grande festival Speed Week e não pareceu tão feliz na pista - nem tão brincalhão - quanto um BMW M5 CS ou um Alfa Giulia GTAm que eu conduzi em sequência. Havia, sim, um pouco mais de ligação com o motorista do que em outros carros daquele grupo, mas um deles era um Audi RS e-tron GT elétrico e o outro um Bentley Conti GT Speed verde-maçã; ambos com mais de meia tonelada a mais que o Mustang e pensados para um trabalho bem diferente.

Certo, então como ele se sai frente a um Mustang comum?

Ele é mais afiado e mais disposto. O motor responde com mais prontidão, sobe de giro com menos preguiça e vence a própria inércia com mais facilidade; nas curvas, o carro parece menos pesado, reage com bem mais rapidez e controla melhor os movimentos da carroceria.

A direção ganha peso e exige menos “volanteando”; no geral, a sensação é de um carro que obedece com mais precisão ao que você manda. Isso o afasta um pouco do papel de GT, mas eu também não o colocaria no mesmo saco de esportivos como Alpine A110 ou Porsche Cayman. Custa parecido, porém carrega mais de meia tonelada extra e não tem o mesmo preparo físico apurado que eles.

Ainda assim, não é um carro para simplesmente atirar numa curva. O peso atrapalha e falta a agilidade necessária para isso. Ele rende melhor quando você entra de forma progressiva, sem sobrecarregar demais os pneus dianteiros; depois, acelera e apoia o carro no eixo traseiro. É uma pena que o controle de tração seja bem intrusivo e, mesmo com menos amarras, ainda se meta - parece uma versão cômica de: “sabe esse controle de derrapagem que Ferrari e McLaren vivem exaltando? Então, a gente deu uma olhada e, olha, é difícil pra caramba, então só convencemos o controle de tração a dar umas engasgadas no meio da curva”.

Isso frustra, porque o Mach 1, com tração traseira apenas, deveria nascer para sair de lado. Dá para sentir o peso indo para trás ao longo do entre-eixos longo, o diferencial travando e os pneus traseiros começando a escapar para fora - e, de repente, tudo para de vez. Uma pena, de verdade.

Pelo menos ele tem câmbio manual.

E ele te lembra na hora o quanto você precisa trabalhar e se concentrar mais. Ainda mais porque as trocas são fortes e definidas: é mais “alavancar” do que “beliscar”. Como alternativa, a Ford oferece um automático de 10 marchas. Curte trocar nas borboletas? Você vai fazer isso tanto que corre o risco de ganhar uma bela LER.

Ele é diferente o suficiente para atrair gente nova para o Mustang?

Eu não consigo ver assim. Não imagino donos de Cayman ou TT achando que isso é avanço suficiente para mudar de lado. A minha aposta é que ele vai vender um pouco para quem quer mandar um último recado para a eletrificação. E, claro, alguns vão trocar o carro atual por um Mach 1; mas deve haver tantos quanto olhando para a diferença de preço e pensando que £11.000 em upgrades no mercado aberto seria um uso melhor do dinheiro.

O Mach 1 não empurra muito a história do Mustang para a frente. Fico feliz que ele tenha vindo, porque mostra que a Ford ainda acredita nesse produto para a Europa - mas por quanto tempo? Esta geração do Mustang existe desde 2014 e está no Reino Unido há cinco anos. Vendeu bem, só que onde ele se encaixa num plano de produtos que, em breve, será bem mais eletrificado e girará cada vez mais em torno do Mustang Mach-E?

E também serve para lembrar como o Mustang normal é um bom negócio.

Isso é curioso. Por £44 mil, o Mustang “regular” te entrega 100% da experiência Mustang - e dá até para argumentar que é mais autêntico, justamente por ser um pouco menos tenso e amarrado. E £44 mil já não soa tão absurdo hoje em dia; tudo depende do que você considera justificável. Um último brinde gastador a gasolina?

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