Coluna do Zé

José Moreira da Silva (Presidente da Academia Literária Gaúcha)

Fone (051) 3269.2368.  Advogado/Escritor  - O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

wwww.josemoreiradasilva.com

JNB 262 - 29 de março de 2013

 

A ESCRAVIDÃO DO VÉU
           Homenagem ao Dia Internacional da mulher
 
Quando se forem todos os “chacais”,
restarem apenas ossos nas cavernas,
a tirania, o crime, o abutre vão
e cairá da face da mulher funéreo véu,
amarguras e desilusões, poderá
 rir, expressar sentimentos,
expor os lábios aos beijos dos amantes,
queimar o pano negro apagante
do sabor da vida, da graça da mulher.
 
Quando se forem todos os “chacais”, mulher,
transmudar-se-ão teus soluços em riso
aberto ao mundo, com

Leia mais...

JNB 260 - 28 de Fevereiro de 2013

 

Gravo o canto em Pedra
 
Porque eu canto com prazer e gosto,
embora o canto seja triste e

Leia mais...

JNB 258 - 25 de Janeiro de 2013

 

As pequenas grandes coisas da vida
 
Quando eu era pequenino, morava no engenho conceição, em Paudalho, Pernambuco, numa casa de taipa, muito longe da cidade. Minhas lembranças vêm de quando tinha mais ou menos cinco anos. Uma das coisas para qual despertei com grande interesse foi um apito de chamar nhambu, ave, cuja a carne é tão saborosa quanto a de galinha. Pegava-se-a numa arapuca. Primeiro vinha a seva de crueira e milho ralado para acostumá-la a vir, naquele mesmo lugar, sempre que tivesse fome. Após, era armada a arapuca e o nhambu caía como mosca no mel.
Acontece que eu gostava mesmo era de ouvir os caçadores usando o apito que imitava o canto daquela ave. Eles apitavam, ela se aproximava e logo mais ela ia para a panela com aromáticos temperos colhidos ali mesmos no oitão da casa. Pois bem, certa boca de noite, apareceu-me José Alves, namorado de Lica, minha irmã, com um apito de chamar nhambu. Não sei, nunca fiquei sabendo, acho que nunca saberei o porquê daquele instrumento causar-me tanto interesse. Talvez fosse por chamar uma fonte de alimento, naquele ermo coberto pelo canavial, quando havia tantos pássaros, que as pessoas se alimentavam de aves silvestres concorrendo para o equilíbrio da natureza (As aves eram em tal abundância que destruíam as lavouras e, por tal razão, não era proibido caçá-las e comê-las). Talvez pela musicalidade do apito, ou quem sabe, por simples infantilidade.
O fato foi que chorei, esperneei, deitei-me no chão, urrei como um bezerro desmamado até ganhar o apito. A partir daquela posse, que seria o meu talismã, senti-me importante; podia também chamar nhambu, primeiro passo para ser um caçador. O homem é possessivo por natureza. Hoje, depois de tantas décadas de vida, tenho nascido no segundo milênio e chegando aqui com saudade da infância, no liminar dos setenta e sete anos, sinto que não deixei de gostar de coisas simples. Aliás, são as coisas simples que ficam, as complicadas se descartam ou passam para o inconsciente, onde se sepultam e poucas ou raríssimas vezes afloram.
Chego então onde eu queria. O dono do bolicho da minha rua, gosta de fazer comida. No seu quintal há canteiros de várias espécies de plantas condimentícias, dentre elas uma tal de alfavaca, a mesma que minha mãe usava para temperar galinhas, nhambu e peixe. Quando a fervura levantava, sentia aquele cheiro de longe e vinha aquela vontade de comer. O homem é um dragão da natureza, nem mais nem menos, precisa ser controlado. De contrário, ele come até o globo terrestre.
Certo dia, de tanto elogiar o tempero “alfavaca” o senhor Lauro deu-me um pezinho da preciosidade, que viveu por algum tempo fornecendo folhas do mais requintado quilate. Apesar dos cuidados, chegou sua hora e morreu.  A morte é o começo da vida que é feita de transformações.
Andei muito em busca de outro pé de alfavaca. Mês passado, o senhor Lauro voltou da Índia. Falamos de bons temperos e do meu desgosto por não ter mais meu pé de alfavaca. Ele levou-me ao quintal e disse: eis ali seu pé de alfavaca. O pobrezinho estava na boca de uma sargeta, arranquei-o, pus numa garrafa com água limpa: não resistiu, mas senti que não gostou de sair dali onde bebia o chá telúrico das moneras, pois largou o cheiro a invadir-me o corpo e a alma. Hoje está plantado num jarro. Diariamente conversamos e ele não vai morrer por falta de carinho. É ou não é bom vizinhar?
Porto Alegre, 09/06/2004
Do livro  Trilhas Literárias III/2011.
Você está aqui: Principal Colunas Coluna do Zé